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Este post é longo, mas peço de coração que o leiam até o final.
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Um pedacinho de terra,
perdido no mar...
Num pedacinho de terra,
beleza sem par...
Jamais a natureza,
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra contar..."
Assim foi cantada a Ilha de Santa Catarina pelo autor do hino de Florianópolis. Quem já esteve na Ilha com certeza ficou emocionado ao ver este pedaço de terra deslumbrante rodeado por um mar verde esmeralda e por outras ilhas, que atraem brasileiros do país inteiro e estrangeiros, principalmente da América do Sul e da Europa. Todos atraídos pela beleza natural praticamente intacta, e pelo contato com a cultura local, de uma culinária baseada em peixes e frutos do mar ali mesmo cultivados, de uma vida que segue o ritmo da natureza, sem os atropelos do dia-a-dia moderno. Coisa rara hoje em dia. Porém, o crescimento sem planejamento da cidade e da região, obviamente, já está trazendo prejuízos na questão da segurança pública e na dos impactos negativos ao meio ambiente.
Praia de Ganchos - Governador Celso Ramos
Para destruir de vez este ideal, um megainvestimento ameaça transformar a Ilha (e municípios vizinhos, não menos belos) em mais um local insalubre para os seres vivos da região. Qual seria ele?? A construção de um estaleiro no município de Biguaçu (17km de Florianópolis), pela OSX, empresa do multibilionário Eike Batista. Este estaleiro tem por objetivo construir e reparar navios petroleiros, para atuar em outras empresas do empresário ligadas à produção de petróleo. Isso significa que seres marinhos, do molusco ao cetáceo, terão de conviver com tintas, graxas, arsênico, óleo e demais resíduos que um estaleiro de grandes embarcações e plataformas petrolíferas pode gerar. Com tantas águas já poluídas no imenso litoral brasileiro que poderiam ser utilizadas para este fim, Eike Batista (que já tem patrimônio de 27 bilhões de dólares, mas tem como objetivo de vida ser o homem mais rico do mundo) escolheu logo um lugar selvagem, de águas límpidas, para construir mais uma arma na sua escalada ao topo, arma essa que vai matar mais uma área ainda intacta da atuação humana destruidora .
Biguaçu - o terreno onde será construído o estaleiro também fica próximo a uma reserva indígena Guarani
O local é totalmente inapropriado para este empreendimento. Isso porquê está localizado em meio a 3 unidades de preservação ambiental federais: Área de Preservação Ambiental de Anhatomirim (que abriga baleias francas e golfinhos, em Governador Celso Ramos), Estação Ecológica de Carijós (próxima as praias de Daniela e Jurerê, entre outras no norte de Florianópolis) e a Reserva Biológica do Arvoredo. Esta última, inclusive, por ter espécies em extinção, foi enquadrada na categoria mais restritiva de unidades de conservação, sendo proibidos mesmo a pesca e o turismo local; apenas uma pequena área é liberada para mergulho. Então, como é que agora, o órgão estadual justamente responsável por proteger o meio ambiente - a FATMA-, dá um parecer favorável ao projeto?? Não parece um contra-senso??
Localização do Estaleiro em Biguaçu (pequena área cinza) - intimamente próximo a reservas ambientais no município de Governador Celso Ramos e o norte da ilha de Florianópolis
Você que investiu tanto numa residência ou na rede hoteleira em Jurerê, ou como o tenista Guga, em Governador Celso Ramos, o que lhe parece esta paisagem??
Mesmo assim, fico apreensiva com o futuro desta discussão. A notícia tem pouco destaque nas mídias convencionais - mais uma vez, aqueles que deveriam ter a obrigação de manter a população corretamente informada. Provavelmente esta negligência tem a ver com o poder do dinheiro. Sabemos infelizmente que a fortuna deste Sr. Eike Batista (é o 8o. homem mais rico do mundo), é o mais decisivo nestas questões. E infelizmente também sabemos que tudo no nosso Brasil funciona assim: "molha a mão" do sujeito que você consegue o que quer. E assim devem estar pensando os políticos de Biguaçu e do governo de SC (que inclusive aceitaram este projeto vendendo a área por valor inferior ao de mercado). Pesquisando na internet, vemos a relação de Eike com a política, tendo ele financiado campanhas políticas que lhe beneficiaram em seus projetos http://pt.wikipedia.org/wiki/Eike_Batista.
Ostras contaminadas por óleo: sendo Florianópolis e Grande Florianópolis as principais produtoras do país, o que sobrará para a maricultura??
Na contra-partida, os defensores do projeto alegam que serão gerados 4 mil empregos diretos e 12 mil indiretos. Não vou nem citar aqui o que o impacto destes milhares de trabalhadores trará a uma cidadezinha como Biguaçu em termos de moradia, saneamento básico, transporte, segurança e saúde (já que a cidade não possui nem rede de tratamento de esgoto e recebe água potável dos municípios vizinhos). O que quero dizer é que empregos podem vir de outras formas. Não é justo que, para se gerar alguns milhares de empregos, outros milhares (setor turismo, setor imobiliário, setor de pesca e maricultura, etc) sejam destruídos. Mas mais importante de qualquer emprego é a natureza que ali se encontra, este milagre que temos tão perto de nós, que uma vez destruída, não tem mais volta. Será que nós, homens, que estamos há tão pouco tempo neste planeta, temos o direito de destruir tudo de acordo com os nosso interesses? Não devemos esquecer que o dinheiro fica, o nosso corpo e os nosso interesses se vão com a morte, mas o mundo vai ficar aí, vai ser o lugar que deixaremos para nosso filhos e netos. Por isso não me venham com essa de emprego, é essa a idéa que estes milionários querem passar: "você aceita uma merreca de salário (ou de propina) e fica feliz pois comprou o seu i-pod, enquanto eu enriqueço às suas custas e à sua burrice". E nesta ilusão todos nós, inclusive os moradores da vizinha ambiciosa Biguaçu, vamos perder esta natureza maravilhosa que não há dinheiro que compre. Cego de quem mora por aqui e não sabe valorizar a preciosidade que tem.
Praia do Forte em Florianópolis - em vez desta tranquila paisagem, navios petroleiros irão compor o visual...
Agradeço-os por terem lido o post até o final, e peço, se possível, que o divulguem. Vamos fazer a nossa parte e não deixar que o interesse privado de poucas pessoas prevaleça sobre o interesse da nossa e das próximas gerações.
Foto acima: pássaro agoniza após vazamento de óleo na Baía de Guanabara/RJ, baía cuja natureza foi destruída para sempre devido a plataformas petrolíferas